Por que a inflação oficial é menor do que a da sua realidade?
De janeiro de 2021 a setembro de 2026, o IPCA acumulou 38,4%. Medimos os preços que uma família de classe baixa e média realmente paga (comida, gás, combustível, ônibus, plano de saúde, roupa, lazer) e o Imposto de Renda que ela recolhe, com os pesos de consumo de famílias de 1 a 10 salários mínimos.
O resultado depende do perfil. Para quem usa ônibus e SUS, a inflação ficou abaixo do IPCA. Para quem tem carro e plano de saúde coletivo, manter o mesmo padrão exigiu renda bruta quase 50% maior.
- O plano de saúde coletivo subiu 86,6%, e o índice acompanha só os planos individuais.
- A tabela do Imposto de Renda acima da isenção é a mesma de 2015.
- Gasolina e gás de cozinha subiram acima da média.
Quanto subiu cada item da cesta
Preços observados nas fontes oficiais de cada setor. Onde não há preço direto, usamos o grupo correspondente do IPCA. A linha azul marca o IPCA (+38,4%).
Plano coletivo: produto dos reajustes médios anuais divulgados pela ANS (2021: 6,43%; 2022: 11,48%; 2023: 14,13%; 2024: 13,18%; 2025: 10,76%; 2026, jan–fev: 9,90%). Contratos com até 29 vidas subiram mais; mudanças de faixa etária não estão incluídas.
A inflação de quatro famílias
Mesma estrutura de gastos (pesquisa de orçamentos da Fipe 2023–2025, famílias de 1 a 10 salários mínimos), mudando só o transporte e a forma de acesso à saúde.
Pesos da Fipe: habitação 28,6%, alimentação 29,1%, transportes 14,0%, despesas pessoais e lazer 15,0%, saúde 6,2%, vestuário 4,3%, educação 2,9%. No quarto perfil, a saúde passa a 12% do orçamento e os demais itens são reduzidos na mesma proporção; esse peso é uma hipótese, não um dado de pesquisa.
O imposto que o IPCA não vê
O IPCA mede preços de consumo; o Imposto de Renda fica de fora. Mas ele decide quanto da renda chega ao bolso. A tabela de 2015 ficou congelada até 2022. De 2023 a 2025 só a faixa de isenção foi corrigida, e as faixas de 15%, 22,5% e 27,5% seguem as mesmas. Em 2026, a Lei 15.270/2025 zerou o imposto até R$ 5 mil e reduziu-o até R$ 7.350; acima disso, nada mudou.
| Renda tributável em 2021 | Mesma renda corrigida pelo IPCA (2026) | IR efetivo 2021 | IR efetivo 2026 | Reajuste bruto necessário (IPCA) | Reajuste necessário (carro + plano coletivo) |
|---|
"Reajuste bruto necessário" é o aumento da renda tributável que mantém a renda líquida com o mesmo poder de compra. Cálculo mensal sobre a renda tributável, sem deduções de INSS, dependentes ou despesas médicas.
Calcule o custo de manter o seu padrão
Informe sua renda e seu perfil. O resultado mostra a inflação da sua cesta e quanto a sua renda bruta precisaria ter subido desde 2021 para você comprar hoje o mesmo que comprava.
E por faixa de renda?
Os índices calculados para famílias de menor renda ficaram próximos do IPCA ou abaixo dele. Separar pobres e classe média não muda o resultado: o que pesa é a composição do gasto de cada família, e itens que nenhum índice de preços mede, como o Imposto de Renda.
Ipea, por faixa de renda domiciliar
Índices para famílias de menor renda
O IPC-Fipe cobre famílias de 1 a 10 salários mínimos na cidade de São Paulo e desde jan/2026 usa pesos de uma pesquisa de consumo feita entre 2023 e 2025, mais recente que a do IBGE.
O IPCA é manipulado?
Se o IBGE reduzisse a inflação artificialmente, os índices de outras instituições, com coleta e método próprios, ficariam acima dele. Nos 12 meses até setembro de 2026 ficaram abaixo.
Inflação em 12 meses até set/2026
- Convergência independente. FGV e Fipe chegaram a números menores que o IBGE. Uma fraude exigiria que instituições sem vínculo com o governo errassem na mesma direção.
- Interesses opostos. Títulos públicos, aluguéis, contratos e benefícios são corrigidos por esses índices. Uma distorção sistemática prejudicaria credores com força para contestá-la.
- Onde está o problema. O índice mede bem o que se propõe a medir. A distância entre ele e a realidade vem do que fica de fora: planos coletivos, impostos sobre a renda, juros e o peso de cada item no orçamento de cada família.
Os nove grupos do IPCA
Acumulado composto de 2021 a 2025 e de janeiro a setembro de 2026.
| Grupo | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | jan–set/26 | Acumulado |
|---|
Quedas em verde.
Metodologia e limites
- Acumulados: produto das taxas de cada período, nunca soma simples. IPCA: (1,1006 × 1,0579 × 1,0462 × 1,0483 × 1,0426 × 1,0395) − 1 = 38,4%.
- Cesta das famílias: média ponderada do acumulado de cada item com os pesos da POF Fipe 2023–2025 (índice de Laspeyres de pesos fixos).
- Preços observados: cesta básica de São Paulo, DIEESE (R$ 654,15 em jan/2021; R$ 900,59 em ago/2026). Gasolina, etanol e gás, ANP (semanas de 10 a 16/1/2021 e de 23 a 29/8/2026). Ônibus municipal de São Paulo (R$ 4,40 → R$ 5,30).
- Imposto de Renda: tabela mensal da Lei 13.149/2015 em 2021; em 2026, tabela com isenção até R$ 2.428,80 e redutor da Lei 15.270/2025 (até R$ 312,89 para renda até R$ 5 mil; R$ 978,62 − 0,133145 × renda entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350).
- Faixas de renda: Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda, com notas publicadas até maio de 2026. O IPC-Fipe de 2024 (4,68%) foi obtido em uma única reportagem.
- O que este painel não prova: que uma família específica teve determinada inflação. Para isso, compare extratos, faturas e notas fiscais de 2021 e de 2026, item a item.
Fontes
Todos os números podem ser conferidos nos links abaixo. As páginas podem ser atualizadas pelos órgãos depois desta publicação.